Neblina

Na região da Serra do Sul do Rio Grande Sul existe o que se pode denominar de um pedaço da Europa gelado, a estação do inverno.

É paisagem bonita, até linda, quando neva.

Em Caxias do Sul, por exemplo, na época da estação do frio, é constante a neblina ou a cerração, mais comumente dita. Um fenômeno que, ao anoitecer, nos causa um ar de mistério, quase que não existem distâncias entre a claridade de uma lâmpada de rua e nossa mão. E quando há silêncio, parece-nos escutar que chove, mas são gotas desta umidade que tombam das árvores, dos telhados... E para quem já leu romances de autores onde esta estação é mais rígida ainda, escritos nos séculos passados, vai aguçar o ouvido e sentir a presença de um coche se aproximar, ou um cavaleiro solitário tomando algum rumo. Fantasias causadas pelo fog, o nevoeiro típico de lá.

Mas aqui em Caxias não há castelos, nem coches, e não é fog. É uma neblina que surge com chuva e até com temporais.

Ah, ouvi dizer de um conhecido que reside em Curitiba o seguinte: “nunca em minha vida ouvi trovejar ou relampear com este tempo todo fechado de cerração”. Pois é, será que não?

E vêm os turistas das regiões do calor apreciar a paisagem do frio, se trancam nos hotéis e ficam olhando para fora, mirando a “paisagem”.

Mas que paisagem, criatura? Não se vê nada com esta neblina, parece que de repente tudo ficou sem cor e borrado, é o mesmo que desenhar algo em preto e depois passar uma borracha suja, um borrão!

Mas não, não diga isto, entre o ver e o sentir há maravilhas, a beleza não possui cores. Nesta época, nossas paisagens são cinza na maioria dos dias de tempo nublado.

Não há monotonia em caminhar sob a neblina, há, sim, que cuidar para não tropeçar em outras pessoas, e isto já é uma aventura. Bem, à noite há outras implicações, apesar de toda luz possuir uma auréola. Numa cidade como esta, existem os oportunistas experientes na profissão da gatunagem. Aí não vale a pena ser um sonhador, a realidade é brutal. Cuidar-se é o essencial.

 Andar de carro torna-se um jogo de adivinha, nem todo motorista está atento, e aí só se descobre que há um carro a nossa frente quando o farol do nosso carro o atinge. Sobressaltos.

E quando amanhece tudo apagadinho, há passarinhos corajosos que cantam como se enxergassem o sol, penso então que se eles sabem conviver em seus ninhos em meio a esta neblina, por que nós, com iluminação e teto, temos o direito de nos queixar?

“O tempo está fechado”, aqui dizem quando não se enxerga quase nada a nossa frente ou a nossa volta, e é fechado mesmo, para a cor, para luz e até param cheiros. Tudo fica úmido, escorregadio... Até um palpite pode transforma-se em discussão, ou seja, questionar. Há os que amam o inverno e há os que o detestam.