Lenço de Chorar

 

Numa gaveta guardo meu lenço de chorar

Neste meu mundo desatento

Onde tudo passa, tudo vive

Mas tudo vai embora como o vento

 

É uma gaveta repleta de dias bonitos

Sem pesadelo ou tormento

Onde deposito qualquer lágrima

Até um prodigioso invento

 

Tentei guardar músicas junto à gaveta

Em vão, meu lenço é um luxento

Parece-me um disparate

Mas entre a dor e a alegria há aliciamento

 

Há acordos nestas dobras brancas

Onde deposito um verso lento

E um dia bate uma saudade louca

E vem um choro como alimento

 

Não estou só com um lenço guardado

Há muitos no mesmo abatimento

Ficar um dia triste faz bem à alma

Só por uma dia, o céu fica cinzento

 

Ao embalar um pingo de pranto

Neste lenço vil e ciumento

Concordo com tantas verdades...

Que até meu coração frequento

 

E se a madrugada chegar bem desinibida

Trazendo o orvalho sonolento

Ainda me deito numa sonata

Onde adormeço sem acanhamento.