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ESCREVENDO O TEMPO

cronicas



 
 

Neblina

Na região da Serra do Sul do Rio Grande Sul existe o que se pode denominar de um pedaço da Europa gelado, a estação do inverno.

É paisagem bonita, até linda, quando neva.

Em Caxias do Sul, por exemplo, na época da estação do frio, é constante a neblina ou a cerração, mais comumente dita. Um fenômeno que, ao anoitecer, nos causa um ar de mistério, quase que não existem distâncias entre a claridade de uma lâmpada de rua e nossa mão. E quando há silêncio, parece-nos escutar que chove, mas são gotas desta umidade que tombam das árvores, dos telhados... E para quem já leu romances de autores onde esta estação é mais rígida ainda, escritos nos séculos passados, vai aguçar o ouvido e sentir a presença de um coche se aproximar, ou um cavaleiro solitário tomando algum rumo. Fantasias causadas pelo fog, o nevoeiro típico de lá.

Mas aqui em Caxias não há castelos, nem coches, e não é fog. É uma neblina que surge com chuva e até com temporais.

Ah, ouvi dizer de um conhecido que reside em Curitiba o seguinte: “nunca em minha vida ouvi trovejar ou relampear com este tempo todo fechado de cerração”. Pois é, será que não?

E vêm os turistas das regiões do calor apreciar a paisagem do frio, se trancam nos hotéis e ficam olhando para fora, mirando a “paisagem”.

Mas que paisagem, criatura? Não se vê nada com esta neblina, parece que de repente tudo ficou sem cor e borrado, é o mesmo que desenhar algo em preto e depois passar uma borracha suja, um borrão!

Mas não, não diga isto, entre o ver e o sentir há maravilhas, a beleza não possui cores. Nesta época, nossas paisagens são cinza na maioria dos dias de tempo nublado.

Não há monotonia em caminhar sob a neblina, há, sim, que cuidar para não tropeçar em outras pessoas, e isto já é uma aventura. Bem, à noite há outras implicações, apesar de toda luz possuir uma auréola. Numa cidade como esta, existem os oportunistas experientes na profissão da gatunagem. Aí não vale a pena ser um sonhador, a realidade é brutal. Cuidar-se é o essencial.

 Andar de carro torna-se um jogo de adivinha, nem todo motorista está atento, e aí só se descobre que há um carro a nossa frente quando o farol do nosso carro o atinge. Sobressaltos.

E quando amanhece tudo apagadinho, há passarinhos corajosos que cantam como se enxergassem o sol, penso então que se eles sabem conviver em seus ninhos em meio a esta neblina, por que nós, com iluminação e teto, temos o direito de nos queixar?

“O tempo está fechado”, aqui dizem quando não se enxerga quase nada a nossa frente ou a nossa volta, e é fechado mesmo, para a cor, para luz e até param cheiros. Tudo fica úmido, escorregadio... Até um palpite pode transforma-se em discussão, ou seja, questionar. Há os que amam o inverno e há os que o detestam.

 

 



Escrito por Nadilce Beatriz às 21h21
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Minha Era Pink Floyd

Syd Barret deu um adeus precoce e diga-se a bem da realidade, que ele colaborou com sua própria despedida, assim como outros tantos.

Rick Wright, adeus, agora.

Abomino fanatismos e detesto soberanos.

Vivo aquilo que me toca o íntimo, mas não o que modifica minha conduta.

Minha banda favorita sempre foi (será) Pink Floyd, se surgir outra igual, melhor, ótimo, mas não creio.

A juventude dos anos 60/70, tinha a mesma qualidade humana que a de hoje, corpos adolescentes, cabeças desperdiçando miolos... Sou dessa época, mas vivia na roça.

Se naquela época existiu o terror promíscuo de sexo e drogas, tenho certeza inconteste, que não era pior do que existe hoje.

Vivia no mato, e pasmem, tinha energia elétrica, mas não tínhamos acesso à ‘telinha’, rádio, sim.

Bem, os ditames da natureza são acordes sutilíssimos em nossos sentidos e eu absorvi essa lição, aprendi a escutar boa música, apreciar a boa interpretação. Quanto às letras... Bem, novamente repito, pior do que hoje NÃO EXISTE.

Sim, lá na roça eu curtia Pink Floyd, onde a única droga que eu conhecia era o porre de vinho dos meus antepassados.

Captei a insanidade de Syd, mas senti que sua intenção era mensagem de alertas, era só deixar de lado seus delírios.

As criações psicodélicas de Waters, patéticas, poéticas... Que de maluco só tem o mau humor, calam as bocas dos que desconhecem cérebro.

Não saberia explicar em que patamar Gilmour estava na época, mas hoje ele continua mantendo vivo o nome dessa banda, seu carisma e seu profissionalismo como guitarrista e letrista vazam com abundância onde ele põe voz e o som das cordas. E se junta a ele Manson e Wright (in memorian), resultando numa arte insight, como se fosse a primeira vez a ouvir ‘aquela’ música’. Parceiros de façanhas ousadas dentro do contexto literário da música. Do blues ao rock.

O legado do desempenho dessa banda não irá esmorecer com nenhuma tecnologia, mesmo que um dos membros fundadores tenha partido, porque cada membro é o Pink Floyd.

Há somente dois tipos de música, a que faz bem ao escutá-la, e a que existe para ouvir, e que agrada somente ao ouvido. No caso da banda citada, ela passa pelo ouvido e invade os sentidos.

Ouço Pink Floyd há mais de 40 anos.

 

 

 



Escrito por Nadilce Beatriz às 18h04
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Um Gato Normal

 

Muitas vezes dou carona à minha filha até seu serviço, mas no dia 25/ 08/10 dei carona a mais alguém. Um gato selvagem.

Ao estacionar o carro ouvi pessoas gritarem que um gato havia sido atropelado.

Sei que, na maioria das vezes as pessoas ficam ao redor do bichinho lastimando e nada fazem. Fui até o carro, apanhei um tecido grosso que sempre carrego no bagageiro, e com muito trabalho e ajuda apanhei o gato.

Levei para uma Clínica, o veterinário sedou o pobrezinho. Constatamos que era castrado e até bem tratado, embora anêmico e com as unhas quebradas, (sinal de animal abandonado).

Hoje em dia as Clínicas Veterinárias não fazem muita questão que deixem animais socorridos e sem donos em suas responsabilidades.

Foi-me emprestada uma gaiola e fui para meu veterinário de confiança. Nada havia de ‘quebrado’ no animal, foi feito uma medicação antibiótica, e vitaminas, e trouxe o gato na gaiola para meu apartamento, que é minúsculo, já com dois ocupantes ‘amados quadrúpedes’, uma cadela pinscher e uma gata, também de rua, que adotamos.

A surpresa maior foi quando o gato começou acordar.

Assisti a muitos documentários de tigres furiosos, e vi-me na eminência de sedá-lo para abrir a gaiola para dar-lhe água. O gato era uma fera, selvagem e enfurecido.

Passou dois dias sob meus cuidados. Com toda a cautela consegui dar-lhe água, muita conversa, muito carinho.

Bem, mesa redonda para o destino do gato. Libertá-lo para o lugar de onde veio.

Na verdade já socorri vários animais e confesso que é traumatizante conseguir quem os adote, sem mencionar as despesas. Engraçado que amam, veneram animais... Mas na hora do socorro ou de uma ajuda para despesas... Nem pensar! Muito raro.

No mesmo dia fiz vários cartazes e distribuí nos arredores e pontos mais frequentados do lugar, ou seja, no bairro onde foi atropelado. No cartaz grifei que as despesas eram por minha conta, contanto que o dono(a) resgatasse-o. Sei que dois dias seriam suficientes para o dono(a) descobrir seu bichano, mas até hoje... Então aconteceu com ele o que acontece com milhares. Adotam, castram e depois que ficam adultos, abandonam.

Ainda não sei qual é o animal irracional nesta trama, que se chama natureza.

A meia noite do dia 27/08/10 fomos levá-lo para seu ‘lar’, para sua liberdade, uma quadra de bosque e muito espaço para esconder-se.  Já estava bem. Aberta a gaiola ele não correu, ‘voou’, e fui atrás como um espectro no meio da noite, mas vi com satisfação que ele tinha sim sua morada, encontrou logo sua toca.

Para mim foi um dia normal.

Foi mais um dia. E se depender de meu amor, ele estará bem.

 



Escrito por Nadilce Beatriz às 21h07
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Mundo

 

 

Estou com pena do mundo, uma dor arrasadora invade minha janela, minha porta... E penso que nas escadas também haja tropeços.

            É que o homem não consegue mais enxergar o brilho do sol, somente lamentar-se que o mesmo pode matá-lo; não tem mais tempo para saber que existem flores no inverno, seja o inverno de hoje ou o inverno de seu dia... Lá no frio de uma dor há flores também.

            Perdeu a capacidade de acompanhar o voo de um pássaro por medo de pisar no seu falso dia; não sabe apanhar borboletas sem quebrar-lhe as asas, as que ele gostaria de possuir, então é melhor pregá-las, assim como seu ego está, alfinetado.

            Não reconhece a música que o faz criativo. Perdeu-se num som que deixa o Universo em polvorosa... Nem ele sabe mais onde está; esqueceu que

chorar não é prantear a si mesmo, e, no entanto endeusa o sorriso porque há dentes mais brancos.

Meu Deus se tens outras moradas, fortifique-as, prepare-as!

Não há mais tempo para equilibrar-se sob a oração, porque os alicerces estão sendo construídos e arquitetados sobre promessas de areias, e saber que o mar é tão poderoso...

Estão os homens a gerar homens sem a identidade da natureza.

O espaço entre a caridade e a humildade ficou tão imenso que o amor não encontra pontes, e quando chega ao abismo encontra os pequenos ainda tentando subir, é quando a inocência pode surgir até num olhar de um animal.

Mas ai, sua mão também não sabe mais abrir-se, fechou-se para oferecê-la, mas quer dá-la para erguer-se, e assim vai agarrando-se em farpas e lascas.

Este mundo deveria ser sossegado como o sono de um filhote de leopardo, cálido como o bafio da chuva de verão, harmonioso como as pedras do rio, sereno como o olhar da lua e justo como a sabedoria do coração. Ah, mas este também ganhou invólucros e formas, já tem peso e medida, é coração somente, está separado e manipulado, afastado dos sentimentos.

E aquela criança que vai indo para a escola, tão miúda e já crescida, já vai com a independência dentro da mochila, porque os tempos são novos, troca-se o carinho pela proteção de terceiros... Cruel. Sabe-se lá se a mãe lhe deu o peito, não deve ser bom sugar silicone; sabe-se lá se o pai existe em seus conteúdos...

Queria que soubessem que pisar em folhas secas não significa que estão mortas; que viver com o necessário existe a possibilidade de agradecer a cada dia; que sentir piedade é dom divino, sinal que o coração reconhece o amor, apesar de  'www.euestouviva. paraainternet.soeu.emaisninguem'.

Sério mesmo, poderia até escrever que ser humilde é honra para poucos e que a pobreza nunca foi farrapo; que a caridade não é linha reta, mas um traçado de formato humano. Peco se omitir que os animais são caridosos por excelência, deveríamos dar um basta. Parar de sacrificar quem está aqui, apesar de tanta ignorância de nossa suja soberba, para nos ajudar a viver melhor.

Estou com dó deste mundo cada vez mais iluminado pela mão do homem e cada vez mais cego por ele mesmo.

 

 

 



Escrito por Nadilce Beatriz às 15h57
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Homens e Homens

O homem comemora o nascimento, porque de todas as criaturas é a mais duvidosa em si mesma; com o passar dos anos festeja seu dia de aniversário, porque teme em não ser capaz de trilhar mais doze meses.

Em toda a sua vida o homem cria motivos para festejar e comemorar só porque precisa esquecer que não é eterno.

Psicologicamente o homem não está preparado para a vida, se estivesse não teria medo da morte; não está preparado psicologicamente para a morte, porque se compara a Deus, e só Deus é eterno.

Fisicamente é o mais fraco e débil das criaturas porque adoece até sem vida...

Existirá na natureza irracional, alguma criatura demente?

O homem não quer entender que ao nascer começa a morrer. Por isso ele cria deuses, quer dar uma origem para a sua ‘inteligência’.

Há milhares de anos o homem procura o que ele mais possui, ou seja, a própria consciência, o início, o meio e fim, Deus.

O homem não crê nos mistérios, só crê no que e onde possa tocar, mas fora dele mesmo, e não dentro de si.

Desconhece que o Universo não está tão distante, e que as dores desse Universo são as mesmas dos homens.

 

 

 



Escrito por Nadilce Beatriz às 21h30
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Leituras e Leitores

 

Pode ser que um dia tudo mude, e pode ser que eu venha a fazer parte disso tudo, quem sabe? Não vou me iludir com dúvidas, minhas certezas estão muito encravadas em minhas opiniões. Fecundas ou não, elas vingam, e eu critico.

Conheço vários tipos de pessoas que dizem que ‘leem muito’.

O pior que observei até hoje é o que lê só com os olhos.

Depois que o homem aprende a falar, só há duas maneiras de ele entender o que faz: lendo ou copiando. Mas parece que as pessoas são reclusas em si mesmas, leitura é abarrotar a estante de livros e chamar de ‘BIBLIOTECA’. Isto é medonho.

As crianças têm que saber ler, gostar de ler, entender o que leem. Bem, para isso deve haver um início, sozinhas elas não tomam iniciativas (por isso amo animais).

Pais, por favor, mostrem os livros para seus filhos. Se foram capazes de gerá-los, suplico, deem-lhes a informação, é simples, não é moda; é urgente, é escola, livros.

Esperar que o filho vá para o colégio aprender a ler é estupidez safada de pais que não tiveram coragem de abortar, isso mesmo, entro na questão de gerar um filho, porque nem toda família leva isso a sério! Gerar um indivíduo é tentar melhorar este mundo, esclarecê-lo, fazer com que seja uma pessoa de opiniões próprias, caráter digno de confiança, íntegro, honesto, ético... Não fugi do assunto.

Ler em família é como orar com devoção, se a criança vê seus pais lerem... É simples.

Existe aquele que só lê livros de autoajuda, para estes penso, ‘contanto que leem’. E não existe mais nada na vida dessas pessoas além de um psicólogo ou psiquiatra. Não leio porque a leitura é óbvia: ‘dois mais dois serão sempre quatro’.

Existe aquele que só lê romance de amor, existem grandes escritores nesta modalidade, mas é sempre a mesma coisa. Fui traída, traí, fiquei viúva, mãe solteira, saí do álcool, fui para a droga, virei crente... Coquete... Casei com ricaço. Esta aí o romance. Chorei.

Verdade que há belas e exemplares histórias. Leio.

Tem o que só lê política, e não sei porque, quero entender. Nada melhora neste contexto; leitura de política é como olhar a Revista Caras, fofoquinhas, fuxiquinhos, tramoiazinhas, espertinhos, barriguinhas... Embriaguez de tolices.

Não acredito nos livros que ensinam como ‘politicar’, por isso tenho que ler.

Mas se houvesse seriedade nos políticos, a política seria bela. É bela, é uma matemática de saberes e iniciativas. Mas hoje, como lidar com este tipo de desestruturação do poder? Boas leituras.

Vou ler Marx porque tenho idéias comunistas; ler Platão porque quero ‘conhecer a caverna’. Ai, meu Deus. (Existem estes).

Um livro é relíquia nas mãos de quem o interpreta, luz aos olhos de quem o sente, caminhos abertos para os que sabem viajar...

Meu melhor presente: um livro. Leio. Independente do assunto, depois de lido e revirado, falo se gostei ou não, mas o livro precisa ser lido!

Jamais se deve dizer ‘aquele livro é uma porcaria’, quem o escreveu empenhou parte de sua vida, quem irá interpretá-lo, deve empenhar parte de sua inteligência. Se não gostar... Aí está, opinião. Por quê?

Em última instância, lá no buraco, na escuridão de quem não é afeito a livros, existem as palavras cruzadas.

 



Escrito por Nadilce Beatriz às 21h58
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Em Prol do Cocô de Cachorro

 

Todo santo dia, e dias Santos inclusive, levamos nossa pinscher, Sissa, para o tradicional passeio, o que é saudável.

Cão criado em apartamento é fiasquento, imagine-se um pinscher! Mas é o mais indicado para este tipo de ‘confinamento’. Há poucos animais mais carinhosos que esta raça.

O entrave aí é que cães não sabem pedir para fazer cocô e xixi... E nem seguram, e no passeio eles aproveitam, é uma maravilha!!!!

Bem, mas não vi ninguém ser morto por cocô ou xixi ‘perdido’.

Saio com o bendito saquinho plástico para recolher o resultado da ração, mas nem sempre me é ofertado o presente, ela nem faz.

Dia desses, passo em frente a uma empresa com a Sissa, e ouço uma voz potente, (era de homem), e grita: “Não deixa esse cachorro ‘cagar’ aí!!!!” Isso me deu uma sacudidela no cérebro e parei.

“Olhe bem para este cachorro, quanto o senhor calcula que ele pese?” “Uns dois quilos”, disse ele. Acertou no peso.

“Quanto de merda o senhor acha que ele vai ‘depositar’ em frente a sua empresa se eu não recolher?” E ato contínuo coloquei bem em frente ao seu nariz o saquinho com a relíquia ainda quente e olorosa.

“Ah, bem, perdoe os cachorros fazem muita sujeira, e blábláblá....” Diz ele.

“Logo aí adiante tem cocô maior que a minha cadela”, mostrei a ele, “é merda ou cocô? A da minha é merda, e dos outros é cocô então? Parou para pensar que existe coisa muito pior que cocô de cachorro? Não existe coisa mais fedida do que a que o homem faz.

Ah sim, como o senhor e o resto da humanidade, já atolei o pé em merda, mas de cocô poucas vezes.”

Recolham os cocos de seus cães, por favor, para não ter que perder tempo com merdas.      

Além de tudo estamos contribuindo para a limpeza urbana e o controle da zoonose, pode ser que assim, aqueles (hominídeos grogues) que costumam se aliviar na beira das calçadas, de madrugada, após o porre e a safadeza, sintam vergonha, e aos poucos descubram que o cocô cabe num saquinho, mas a merda se alastra.

 



Escrito por Nadilce Beatriz às 15h50
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Estação, Parada de Ônibus

 

Há 30 anos não via uma pessoa, pois que naquele tempo encontrávamos diariamente. Numa bela tarde de sol encontramos-nos, e ‘olá, como vai, há quanto tempo, não resides mais lá?’ E quase me escapuliu a frase mortal, ‘como podes ainda estar viva’? Por quê? Bem, é que naquela época a pessoa já possuía uma idade avançada, após trinta anos... Jamais pensei em revê-la! E a frase quase saiu automaticamente, tive que desdobrar outro diálogo, para disfarçar.

Passado uns dias, ao mirar-me no espelho... Sinceramente, ela podia ter feito a mesma pergunta.

Quer conhecer a história do povo de uma cidade? Fique numa parada de ônibus ‘perdendo’ todos os coletivos urbanos. É hilariante.

Acredito piamente que somos originários de vários planetas.

Há um banco somente, 30 ou 40 pessoas, amontoam-se nele, por alto, meia tonelada de sacos, sacolas, bebês pesados de xixi e cocô, skates, mochilas de livros, ou crack (vai saber...). Cheiro de vômito, isso é odioso. A maioria das crianças (adolescentes) vai para as paradas de ônibus comendo salgadinhos, já repararam que eles têm cheiro de vômito?

No horário mais adiantado do dia tem o ‘bom ar’, morador antigo da cidade, conhece até o proprietário da primeira residência. ‘Bom ar’ porque toma o ônibus no 'balaço', odor (fedor) de pinga.

Existem as senhoras que vão para reza, mas antes de rezar fazem a checagem da vida da vizinhança, me olham... Eu lhes mostraria a língua, mas não tenho mais idade para isso. Fico feia.

Aí vem aquele esnobe, por que será que pega sempre o ônibus? Deve ser psicopata. Ouvi-lo falar é uma comédia. Escolhe ao acaso o mais miserável e começa a contar suas ‘realizações’ nos negócios, suas viagens, seus contatos... Usa uma maleta de notebook... E o pobrinho fica escutando uma falação, que para ele não tem nem nexo. Tira um cigarro, dos mais fedidos e dá um pitaço na cara do ‘ricaço’. Que vontade de rir!!!

Depois surgem as professoras. Umas bem professoras, outras nem tanto...

Há a mãe que perde a paciência e dá uma tapona na criança e grita a plenos pulmões, ‘quando chegar em casa te cago de laço’! Mas o pobrezinho já apanhou...

Ah! Uma bichona, toda vestida de couro. Ainda não descobri se faz ponto ou pega o ônibus, velha conhecida (o), educada, sabichona, dá palpite em tudo. ‘Fica longe’, penso eu, não aprendi a lidar com isso, é novidade ainda.

Vem também o ‘bicheiro’ oferecendo um joguinho do bicho, e ele insiste, até alguém ameaçar com a polícia.

Às vezes a polícia aparece e por duas vezes ela age da mesma forma, pede documentos... Tenho certeza absoluta que ela não enxerga o que lê ou vê, porque numa abordagem – parada de ônibus também é bom esconderijo para assaltantes – ao invés de mostrar minha identidade mostrei o título de eleitor e ele não reparou no meu engano.

E foi engano mesmo, mas passei no ‘teste’.

O asno do vendedor de sorvete. Quando penso nisso, detesto quem inventou o sorvete. Se há 20 crianças as vinte vão querer. É meleca de sorvete na roupa, sorvete no banco, sorvete no meu pé, meleca de sorvete com meleca de nariz, mãos sujas... E o desgraçado do sorveteiro ainda faz desconto!!!!!!!!!!!!

De repente vem aquela mulher que não sabe ficar de boca fechada, fala, fala e fala... Escutei a primeira frase e depois saí do ar. Dei-me conta quando ela perguntou se eu morava longe. Por que será que as pessoas que falam muito geralmente falam asneiras? Lembrei das piadas ‘tolerância zero’, quase respondi ‘não, não moro longe, vou de ônibus hoje, porque li no jornal que ele vai voar’.

É um lugar para testar os nervos, seu estado físico, psíquico e emocional.

Nos finais de tarde o dia está pesado, se é verão nem mais suar suo, esgotei o ‘fazedor’ do metabolismo; se é inverno os pés estão tão frios que se tropeçar ele quebra e nem vou notar, tal a canseira. E aí vem o gago puxar assunto, foi quando eu disse ‘meu ônibus está chegando’, aí ele perguntou: ‘que, que, que, b aba, bi, ba, aababairro, t,t,t,ttu  res, re,re, resi...’. Perdi o ônibus!!!!!

Tem os que não tem paciência, a cada 15 segundos esticam o pescoço para ver se o coletivo aponta na esquina. Com certeza a canseira não vai ser de ficar esperando o ônibus, mas sim de ficar com o pescoço uns 10 cm mais longo, é o que penso.

Também perdi a paciência, vou a pé.

 



Escrito por Nadilce Beatriz às 22h51
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Um Passeio na Eternidade

 

Quanto de férias será necessário para o descanso de um ano?

É provável que não seja um descanso, e sim um atropelo, se levarmos em conta para onde iremos ‘ficar de férias’.

Gosto das férias dos domingos, este dia da semana é um descanso.

Posso não ir para meu trabalho de rotina, posso, fazer meu almoço, se quiser. Posso dormir até mais tarde... Ficar com os pés descalços, cara lavada...

Ah, mas se for falar de férias para meditar, então preciso tirar tempo para chegar até a eternidade. Impossível? Não. Vou fechar os olhos ao entardecer até o sol se por, e quando iniciar a noite olho para o alto, pronto, cheguei até a eternidade, aí então inicio um diálogo comigo mesma.

A partir disto estarei de férias para a matéria.

As pessoas preocupam-se em demasia com viagens, gastos e exibicionismos por conta de férias, na realidade esta temporada de fuga para fora da rotina nem sempre vai amenizar o cansaço, nem sempre trará boas recordações, exceto as fotos... Para exibir. Estive lá, conheci tal lugar...

Mas antes de planejar as férias mesmo, há que se preocupar, com a serenidade, só, ou acompanhada (o).

Entendo que férias seja descanso, sossego, e este, pode ser num dia de domingo, num dia de feriado, numa praça tomando sorvete com amigos... Fazer grandes distâncias através de um bom livro.

Ou dar um pulo na eternidade e tentar desvendar mais um pouco do que existe de bom dentro de mim, a parte divina, que todos possuem, mas necessita de paz para aproximar-se de nós.

 

 



Escrito por Nadilce Beatriz às 22h10
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Onde Começa o Destino

            


            A vida é um filão de ruelas turbulentas, sutil como uma gestação oculta, e finita como um sonho qualquer.

            Deparei-me com esta reflexão ao ouvir histórias de famílias.

            Sempre pensei que família fosse mãe, pai e filhos, não necessariamente nesta ordem, assim como numa moldura, todos felizes, sorrisos para a ocasião do inédito: “a foto da família”. Não seria hipocrisia se fosse sempre espontâneo.

            Sabe-se lá de qual e de quantas gerações diferentes uni-se um casal. Mas quase sempre vão ‘querer’ filhos. Observo que este querer não nasce junto com o ‘construir’. Falo da vida, um filho, outra vida. Sem moldura, sem retrato, só uma vida a moldurar.

É uma exuberância fascinante a gestação, primazia do ser feminino, fêmea, feminil. Uma mulher.

Li em artigo de João Paulo II onde ele cita a frase ‘o mundo está nas mãos das mulheres’. Hoje participo de seu raciocínio, porque o que ele enalteceu foi a capacidade da mulher em dar início a um destino. Nesta tarefa ela não está só, ou pelo menos não estava. Hoje, o pai nem sempre é necessário, em muitos casos.

Aí começam os questionamentos. Reparo que há pais crentes que suas crianças não têm cérebro. Não sentem, não escutam nada, não têm memória e não enxergam, principalmente. A partir destes quesitos começam as aberrações.

Quando o casal decide por gerar uma vida, esquece que por um determinado período deste processo natalino, serão os olhos, ouvidos, sentidos, pés, mãos e coração desta criatura.

É cruel identificar casais que só ‘quiseram’ filhos, não lhes deram nenhum alicerce.

Psicopatas, pessoas, degradantes e inúteis... Será que possuem defeitos morais por eles mesmos? Um tanto cômodo culpar a hereditariedade ou o meio, isto nem sempre ela existe.

Constrói-se uma vida a partir dos moldes que lhe apresentamos. Uma criança vem a ser como uma máquina poderosa de aprendizado, mas muitas vezes está em mãos inábeis, e até de imbecis.

Desde o primeiro choro, está iniciado um destino.

E quando a idade avançar, este ser, que se foi bem ‘construído’, realmente irá sorrir para a fotografia, se ao contrário, seu sorriso será de hipocrisia. E nos dois casos são duas vidas com razões, e para a sociedade só vai depender de status.

Esta sociedade é cruel, sempre foi e será. Imaturo aquele que pensa em culpá-la.

 

Sociedades não gestam, só reúnem o que foi gestado, e gestar é iniciar um destino.



Escrito por Nadilce Beatriz às 16h06
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Caminhando com o Tempo

 

 

Passei a semana inteirinha esperando minha amiga, para fazermos a caminhada de praxe, uns três quilômetros, pouca estrada. Mas ultimamente, parece que ela não quer mais andar.

Invocada, bato à sua porta, ao que ela me diz que não tem mais um minuto de tempo.

Comecei a questionar o termo ‘minuto de tempo’. Fui de Aristóteles a Jesus Cristo, de Marx a Newton; fiz uma viagem de pesquisas, livros, internet e experiência própria e nada descobri do tal ‘minuto de tempo’. Será que ela leu Operação Cavalo de Tróia de Benitez? Vai ver num dos livros fala disto. Eu não li todos. Perguntei-lhe. Qual nada, nem sabia a quem eu estava me referindo.

Comecei a prestar atenção e descobri que muitas pessoas falam no tal ‘minuto de tempo’. Que estapafúrdia maneira de ver a vida, eu pensei. Poder-se-ia dizer ‘estou ocupada’ ou ‘vamos mais tarde’ ou ainda ‘tenho compromissos’. Mas culpar o tempo. Ah, não! E além do termo criativo, que a ciência ainda não descobriu, não soube me explicar.

Vou parecer ingênua, mas começo a acreditar que as pessoas pensam que vivem para ver o tempo passar. Seria magnífico se passassem pelo tempo vivendo.

Vou caminhar sozinha, eu e mais o incrível ‘minuto de tempo’. Não, pensei comigo, vou desvendar este termo.

Minha caminhada de 40 minutos, veja só! Um tempo de 40 minutos. Santo Deus é uma vida, então, comparado há um minuto! Comecei a desconfiar até da sanidade da minha amiga. Estaria ela morrendo? Ingerindo depressivos em excesso, quiçá?

Voltei para ela após minha caminhada. Relutante em tocar no assunto, comentei onde fui, com quem falei... E ela ainda me respondeu, novamente, ‘pois é, não tenho um minuto de tempo’. Aí eu perdi um pouco da minha paciência. Mas como eu te disse, eu andei 40 minutos e tu não tens nem um minuto? O que fizestes com o teu tempo? Guardastes para a posteridade? Pensas em rejuvenescer, talvez? Pensas que tempo é igual cartão de crédito?

Não devia ter falado isso para ela. Chamou-me de desocupada! Nunca ninguém me disse isso. E se eu chorasse, ainda assim, pareceria hipocrisia, porque ela estava ocupada e, por incrível que pareça, eu é que estava passeando. Difícil organizar este diálogo. Fui embora. Meu tempo estava deveras fechando as portas naquele dia, fechei a dela e até amanhã.

Havia muitas tarefas ainda para cumprir antes que findasse o dia, mas havia tempo também. Foi aí que algo me chamou a atenção. Se a falta de ‘minuto de tempo’, a qual ela mencionou, era a dificuldade de fazer algo a mais, só podia, então, ser a pressa. Bem elementar! Se eu começar a apressar tudo, não ganho tempo, pelo contrário. Aí, então, meu tempo passa à deriva, perco muito. Perco a calma e a serenidade porque eu só tenho tempo, mas não sei usá-lo. Logicamente, não ter ‘um minuto de tempo’ faz sentido. A pressa é tanta que ele se anula e aí pouca coisa se desenvolve.

Pela manhã, minha amiga veio pedir desculpas pelo ‘desocupada’. Não, não, eu lhe disse, eu sou desapressada. Acabo de criar uma palavra. Não sou lerda, não sou lenta, mas também não é que eu não tenha pressa. Eu, tão somente, não estou colocando horários no meu tempo.

Então fomos caminhar e ela desabafou. ‘Meu marido fez uma microcirurgia nos olhos'... Plástica. Eu fui direta, ela corou. 'Pois é, coisas do tempo. Agora estou meio que desconfiada, pura vaidade. Ele quis tirar marcas'. Ah! O tempo é implacável. Aí está! Cadê o ‘minuto de tempo’? Estás percebendo?  Ele envelheceu sem horário nenhum, assim como eu e você. Não adianta apressar, precisa é estabelecer contatos com a vida. Do resto, o tempo se encarrega. E tem mais um quesito aí. Ciúmes. Minha amiga, nem imaginas, então, daqui pra frente, em quantas partes de seu corpo haverá necessidade de microcirurgias! Não te apoquentes! Dê tempo ao teu precioso tempo, mas não lhe dê horários. Eu comentei. Será? Ela olhou-me de esguelha.

Mas a safadeza do marido era tiro certo. Quatro meses depois vem ela queixosa. 'Não é que vou morrer por isso. Mas agora, depois de tanto tempo juntos... Te falei que ele ia procurar outra, e tens que ver o tipo. Muito fina, ela. Lingeries... E você sabe'. Lingeries? Minha amiga, o amor não precisa de vestimenta. Teu marido foi embora porque o tempo de vocês acabou. Pode não ser justo, nem tão correto, mas este tempo que findou, não foi ao lixo. Ou vocês ficaram parados olhando um para o outro? Eu falei. 'Até que não', disse-me ela, de cabeça baixa.

Mas que amiga, pensei, eu tenho agora. Ela vai recuperar aquele ‘um minuto’. Vamos ver o que me dirá amanhã. Não tenho queda para psicóloga, posso até chorar junto, mas juro que pena, não. Ah, não! Tudo acabou. Nada foi quebrado além de uma rotina, tênue, eu diria, porque nesta vida cheia de tempos, passados, presentes e futuros, todos repletos de muita vida. É isso que vou dizer a ela amanhã. Mesmo assim, daria uma lida em Freud.

Surpresa! Ela bateu em minha porta um tanto eufórica para sua personalidade casmurra. Parecia feliz pronta a sair saltitante. Pensei que iria me convidar para uma festa. 'Vamos caminhar! Hoje está um dia maravilhoso. Estou disposta e tenho mais que um minuto de tempo', disse-me ela. Mas será que ela havia entendido este tempo? Será que para ela não seria o tempo do relógio em movimento, e o espaço entre o dormir e acordar? Lá fomos nós, desta vez realmente caminhar.

Em certa altura, ela para e me pede para andarmos mais lentamente, pois ela tinha todo o dia. Ah, não. Não entendeu mesmo. Parei e sentei num banco. Devia ser o depósito da digestão dos pombos. Sentamos igual. 'Mas é sério. Hoje tenho todo o tempo do mundo', ela diz. Como? Num dia? Mas que maçante dialogar com quem ‘ingere’ tempo! É isso que muita gente faz. Alimenta-se, precisa consumi-lo, não pode deixá-lo ao acaso sem alcovitar suas desgraças.

Calmamente ficamos a olhar o espaço, a vida passando em todas as vidas que andavam a nossa frente, cada um no seu tempo, alegres, tristes, com dores, ou de bengalas... De bicicletas, de choros ou de risos. 'Quanta gente há nesse mundo. São diferentes de nós e fazem o que fazemos e até parece que não têm tempo', disse minha amiga. É que aquele ‘minuto de tempo’ não existe nos ponteiros, só na pressa de algumas pessoas, ironizei. E pressa, minha amiga, podes não acreditar, é perda de tempo.

Fomos comer churros.

 



Escrito por Nadilce Beatriz às 20h37
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